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  1. GERAÇÃO PÓS-REAL ENCARA A INFLAÇÃO

    São Paulo, 15/08/2015 – Os mais velhos sabem. Um dragão verde e violento, que cospe fogo e tudo incinera, reinou absoluto como símbolo de um dos piores males que assolaram a economia nacional: a inflação. Em 1994, quando o Plano Real triunfou feito um São Jorge, o bicho sucumbiu. De lá para cá, desapareceu do imaginário popular. Pergunte a um jovem que cresceu na estabilidade que animal representa a inflação. A não ser que ele seja leitor de crônicas da economia do século passado, não vai saber. A inflação para essa geração não é um dragão. É, no máximo, uma lagartixa feiosa.

    No ano em que completa a sua maioridade, 21 anos, a estabilidade já não está tão estável quanto antes. Nos 12 meses encerrados em julho, a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de 9,56%. O jornal O Estado de S. Paulo conversou com jovens na faixa de 20 anos para saber como eles veem, pela primeira vez na vida, a inflação se aproximar dos dois dígitos.

    A maioria tem dificuldade até para definir o que é inflação: “alta de preços por causa da crise; aumentos de impostos”, foram algumas tentativas de definição. Mas isso não significa que esteja alheia à perda de valor de compra da moeda. Ao contrário. A nova geração tem senso aguçado de quanto vale o real.

    Evandro Eliziario da Silva, 19 anos, que vive com a família na Zona Leste da capital paulista, se baseia no pão e no leite para medir a inflação. “Quando eu era criança, meu avô me dava duas, três moedas de 50 centavos para eu comprar pão e leite. Não se compra nada com moedas hoje.” O que mais lhe incomoda é o efeito da alta do dólar, que prejudica o seu passatempo favorito: andar de skate. Sempre que pode, sai do trabalho no Tatuapé, pega o metrô para o centro e vai fazer manobras na Praça Roosevelt. “As camisetas mais legais da DGK (marca descolada criada por um skatista americano) custam pelo menos uns US$ 50: isso hoje dá mais de R$ 150 e acho que é um tipo de inflação, não?”

    Algo que causa estranhamento aos jovens é ver que preços podem subir de maneira acelerada e generalizada – e não pontual e lentamente, como parecia a lógica. Barbara Castellari Peixoto, de 20 anos, se mudou de Barueri para a capital paulista, onde cursa direito na Universidade Mackenzie. Ganhou um carro dos pais. Ocorre que o preço do veículo subiu pouco antes da compra, algo que lhe pareceu inimaginável. Também estranhou o aumento das passagens aéreas, das roupas, de tudo, enfim, ao mesmo tempo. “Havia uma estabilidade maior, agora está tudo subindo. Eu nunca senti antes o que estou sentindo agora”, diz. Ela até pediu aumento de mesada. “Mas acho que meu pai não vai dar.”

    Os pais, aliás, que viveram a hiperinflação, têm apresentado as melhores lições de como se defender dos reajustes. Tatiane Donesi, de 21 anos, trabalha como vendedora para bancar o curso de radiologia na Faculdade das Américas (FAM). Nos últimos anos, a vida dela, da irmã e da mãe engrenou. Compraram celular, trocaram os móveis, a geladeira. De um ano para cá, a situação virou. “A gente até precisa de um fogão novo, mas não vai dar. Ficou tudo mais caro. A maior loucura é a conta de luz”, diz. Para fazer o dinheiro render, ela conta que a mãe mudou o jeito de ir às compras. “Agora, procuramos promoções em grande mercados e fazemos compras maiores”, diz Tatiane, que tem passado a lição aos amigos. “Eu falo para todo mundo: não dá para comprar de picadinho, gasta mais.”

    Outras prioridades
    Mesmo com os recentes dissabores financeiros, a alta dos preços não é a maior preocupação da moçada. Antes da inflação estão a instabilidade política, a corrupção, as deficiências na educação e na saúde. A vendedora Kally Ferreira, 19 anos, percebeu que seu R$ 1,1, mil já não rende como antes. “Quando eu era criança, me sentia rica com R$ 1 porque podia comprar dois sonhos e uma coca-cola pequena. Agora, para economizar, troquei o arroz parboilizado, que gosto, pelo normal”, diz ela. “Mas na lista de coisas que mais me incomodam, antes dos preços, estão a política, a falta de ética e a falta de educação – no metrô as pessoas não se levantam nem para dar lugar a uma senhora.” (Alexa Salomão)

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  2. LAGARDE DIZ QUE BRASIL ESTÁ NO CAMINHO CERTO, MAS LISTA DESAFIOS

    22/5/2015 – A diretora geral do FMI, Christine Lagarde, afirmou que o “Brasil está claramente no caminho certo”, ao avaliar as medidas adotadas pelo governo na área macroeconômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Para ela, o mesmo ocorre com outros países da América Latina, nos quais vemos um fortalecimento significativo das políticas macroeconômicas. “É claro que, em um contexto de desaceleração do crescimento, essa postura é alvo de críticas”, destacou. “Nossa análise, porém, indica que uma nova dose de estímulo poderia ameaçar a credibilidade arduamente conquistada dos esforços de política do passado. Tal credibilidade é particularmente importante para restaurar e sustentar as perspectivas de um crescimento forte, equilibrado e inclusivo.”

    Para perseverar nas ações de política econômica que para ela estão no caminho correto, Lagarde citou o escritor José de Alencar. “O sucesso nasce da determinação em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis”, disse. “Sem dúvida, na atual conjuntura, restaurar o crescimento sólido e preservar a estabilidade macroeconômica e financeira duramente conquistada na região será um desafio. Contudo, as dificuldades atuais podem também gerar oportunidades para abordar deficiências de longa data e realizar reformas para lançar uma nova fase de prosperidade e progresso social. Quem vence obstáculos pode fazer coisas admiráveis.”

    A diretora-geral do FMI apontou que são necessárias medidas em muitas áreas na América Latina, mencionando o Brasil como referência. “Quero salientar três delas e, mais uma vez, utilizar o exemplo do Brasil para ilustrar alguns dos desafios comuns à região. O primeiro item na minha lista é eliminar as lacunas de infraestruturas. A infraestrutura inadequada é um dos maiores obstáculos à produtividade em muitas economias da América Latina, inclusive o Brasil. Por exemplo, segundo os relatórios do Fórum Econômico Mundial, o país enfrenta problemas com a qualidade das estradas, portos e transportes aéreos.”

    Segundo Lagarde, no Brasil “o Programa de Concessões de Infraestruturas é um passo importante e oportuno na direção correta. Um aspecto crítico é que o setor privado é chamado a assumir um papel de destaque.” A diretora geral do FMI disse que “como o ministro (Joaquim ) Levy assinalou recentemente em um seminário em Washington”, o Brasil tem um longo histórico de participação privada bem sucedida no desenvolvimento e na gestão de infraestruturas. “Um bom exemplo é a ponte Rio-Niterói, visível de tantos lugares no Rio, que foi recentemente objeto de licitação.”

    De acordo com Lagarde, o segundo item da sua lista é reduzir o custo dos negócios.” Por exemplo, o sistema tributário brasileiro é caracterizado por um conjunto complexo de impostos indiretos, inclusive nas esferas estadual e municipal. Isso gera altos custos de cumprimento para os contribuintes.”

    “A simplificação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nos estados e dos impostos federais sobre vendas poderia promover melhorias significativas no ambiente de negócios”, disse Lagarde. “Ao mesmo tempo, abordar as fontes de rigidez orçamentária poderia ajudar a aumentar a eficiência dos gastos públicos.”

    O terceiro item na lista de prioridades elencada por Christine Lagarde é revitalizar a integração comercial. “A América Latina e, particularmente, o Brasil, ainda tem muito a ganhar com o aprofundamento da integração nas cadeias globais de valor e a maior transferência de tecnologia dos parceiros comerciais.” Para ela, a Ásia é um bom exemplo dos benefícios da integração nas cadeias globais e regionais de valor. “Entre os grandes mercados emergentes, o Brasil apresenta um dos menores volumes de comércio de bens e serviços em relação ao PIB. Por isso, mesmo esforços modestos para aumentar a integração comercial poderiam dar um impulso significativo às perspectivas de crescimento.”

    Para Lagarde, o Brasil já tem iniciativas em curso em todas essas áreas, algumas mais conhecidas ou em estágio mais avançado do que outras. “O essencial agora é garantir uma implementação vigorosa e ambiciosa para que produzam o estímulo ao crescimento e à prosperidade que todos esperamos ver”, disse.

    Avaliação
    Na opinião da diretora-geral do FMI, nos últimos anos, foram vistas “algumas reviravoltas significativas” na América Latina, sobretudo ao longo do eixo Norte-Sul. Em 2010, enquanto o Norte esfriava o Sul se aquecia. “Hoje, o Norte se recupera e o Sul espera. Do meu ponto de vista, porém, há oportunidades imensas para o conjunto da região – com a retomada do crescimento e a prosperidade aflorando no Norte e no Sul. E vejo o Brasil como um forte candidato a liderar pelo exemplo.”

    De acordo com Lagarde, o ambiente externo tornou-se menos propício e as restrições internas não são triviais. “Mas com perseverança e as políticas corretas, esse futuro promissor estará ao nosso alcance. Ela apontou que não poderia deixar o País sem lembrar de Pelé, ao dizer que “O sucesso não acontece por acaso. É trabalho duro, perseverança, aprendizado, estudo, sacrifício e, acima de tudo, amor pelo que você está fazendo ou aprendendo a fazer”, destacou.

    “À medida que se aproximam nossas Reuniões Anuais em Lima, Peru, estou confiante que as autoridades econômicas encontrarão a perseverança, a inspiração e, sim, a coragem para fazer as escolhas certas e iniciar uma nova era para a região”, apontou. ” E, assim como no futebol, cada país terá de fazer a sua parte para que o conjunto saia vencedor.

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  3. JOSÉ PAULO KUPFER: O FANTASMA DE 1937

    Prever o que vai acontecer, no futuro próximo, com a taxa de câmbio é sempre uma das maiores dificuldades para os formuladores de políticas econômicas. Esse exercício, no momento atual, se tornou particularmente complicado, dadas as incertezas que envolvem muitas das variáveis que entram na formação das cotações do dólar. Antecipar os movimentos do câmbio, contudo, não deixa de ser crucial, sobretudo na definição da política monetária pelo Banco Central.

    Um dos maiores dilemas, nesse campo, diz respeito a um elemento tão essencial quanto fora do controle do BC. Trata-se da decisão de seu congênere americano, o Federal Reserve, em relação ao momento de dar início à retomada de altas nas taxas de juros dos títulos federais. Só a ameaça de que a data da mudança de rumo estivesse próxima produziu, nos últimos 12 meses, pelo menos duas chacoalhadas fortes no mercado financeiro global.

    Embora a retomada do crescimento nas economias maduras, sete anos depois da eclosão da crise de 2008, ainda continue claudicante, a liquidez financeira superou a contração inicial provocada pelo estouro de uma bolha de ativos e voltou a crescer. Não é difícil antever o que acontecerá com os capitais hoje aplicados em economias emergentes quando a guinada na política monetária americana acontecer. Com novas perspectivas de ganhos, eles voarão em nuvem para a qualidade e a segurança dos títulos em dólar.

    Essa retomada da liquidez se deveu primeiro ao longo programa de injeção maciça de dinheiro no mercado americano pelo Fed, como forma de animar a economia e, mais recentemente, pela repetição dessa política tanto na Europa do euro quanto no cronicamente combalido Japão. A abundância de dinheiro não relançou as economias, mas ajudou a evitar retrações mais fortes no nível de atividade e em parte transbordou para outros mercados, em razão dos juros próximos de zero praticados nas economias em que o “afrouxamento monetário” foi adotado.

    O problema é que a data da virada, que já pareceu mais nítida no horizonte, voltou a ingressar numa zona de névoa. Se o desemprego, nos Estados Unidos, recuou para a “meta”, a inflação teima em se manter abaixo do programado e o crescimento se mantém numa gangorra. Apesar de toda a liquidez injetada, repete-se, de certo modo, o “paradoxo da parcimônia”, descrito por Keynes nos idos da Grande Depressão. Numa tradução livre e simplificada, o que ocorre quando uma economia está em baixa é que quanto mais as pessoas deixam de gastar e resolvem poupar, temerosas do que lhes reserva o futuro, mais a economia se deprime.

    Nem fartura de recursos nem juros reais negativos, contudo, têm dado segurança de que o relançamento da economia está batendo na porta. De junho deste ano para setembro e agora sem data previsível, o início das altas dos juros, nos Estados Unidos, voltou a ser uma incógnita. Os fantasmas de 1937 parecem ter se transformado em fator relevante para explicar a atual hesitação dos dirigentes do Fed. Iludido por sinais de recuperação econômica e aumento da inflação, depois de anos de estímulos, o governo Roosevelt promoveu um aperto fiscal e monetário que recolocou a economia americana em terreno recessivo, obrigando a um recuo nos anos seguintes.

    Economistas consultados pelo próprio Fed, em fins do ano passado, projetaram em 20% as chances de que se repita, dentro de até dois anos, o “desastre de 1937”, caso altas nas taxas de juros sejam retomadas em 2015. É um porcentual alto o suficiente para reforçar o abacaxi que os bancos centrais de economias emergentes têm de descascar com suas políticas de juros. Quanto mais demorarem para colocar a taxa de câmbio no lugar adequado e evitar ampliação de déficits externos, mais riscos correrão de encomendar crises cambiais, se a retomada dos juros nos Estados Unidos for adiada. Em tempo: qualquer semelhança com a política brasileira de juros e câmbio não é mera coincidência.

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  4. China quer investir até US$ 53 bi no Brasil

    Por Sergio Leo

    Uma lista de quase 60 projetos de investimento, de obras de infraestrutura a instalações industriais, no valor de até US$ 53 bilhões, acompanhará o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang (pronuncia-se Li Ketchiang) em sua visita ao Brasil, na próxima semana. A lista é vista pelos chineses como uma “colheita antecipada” (early harvest) do acordo a ser assinado por Li para “cooperação para promoção de desenvolvimento e capacidade produtiva”. Do lado brasileiro, um dos maiores interesses é o investimento em ferrovias, onde estão alguns dos maiores projetos acalentados pelos chineses.

    O interesse chinês em dar maior coordenação à cooperação bilateral reproduz, no Brasil, iniciativas semelhantes do governo de Xi Jinping em outros países, como o México. Li Keqiang, como primeiro ministro, é o principal responsável pelos temas econômicos, no esforço da China em expandir sua influência pelo mundo. Para o Brasil, a oferta chega em um momento de dúvidas sobre o financiamento das necessárias obras de infraestrutura no país e sobre a capacidade do setor público para realizar os investimentos indispensáveis à retomada do crescimento econômico.

    O setor de energia é, de longe, o principal alvo dos chineses, com projetos previstos que somam quase US$ 33 bilhões. Nesse pacote estão 27 projetos, alguns já em construção, como os quase US$ 2 bilhões da fase I das linhas de transmissão da hidrelétrica de Belo Monte, e outros de interesse da China, como a segunda fase da transmissão de Belo Monte (cerca de US$ 2,5 bilhões), uma hidrelétrica, uma termelétrica, usinas eólicas e outras linhas de transmissão.

    O setor de energia é o principal alvo dos chineses

    Os nove projetos de infraestrutura viária e logística somam cerca de US$ 16 bilhões, e têm as ferrovias (mais de US$ 7,5 bilhões, somando linhas de metrô) como menina dos olhos do Palácio do Planalto. Os projetos incluem uma linha ferroviária ligando Vitória (ES) ao Rio e trechos ferroviários no Mato Grosso destinados a compor a ligação bioceânica entre o Atlântico e o as margens peruanas do Pacífico.

    No capítulo de infraestrutura há também planos da China Engineering Group de investir cerca de US$ 2,7 bilhões no abastecimento de água da cidade de São Paulo e pouco menos de US$ 1,3 bilhão na instalação de uma “cidade logística” em Pindamonhagaba. Os chineses somam, ainda, projetos industriais de US$ 4 bilhões, alguns deles já em curso, como a fábrica da Chery, de US$ 400 milhões, e outros que estão apenas nos planos, como a venda de locomotivas para a linha 13 do metrô de São Paulo.

    Evidentemente, nem tudo que é anunciado pode ser contabilizado pelo seu valor de face. Há promessas, projetos dependentes de licitação e, na lista de “colheita antecipada” dos chineses está, por exemplo, projetos já anunciados, como a ampliação das instalações fabris da Sany, grande produtora de equipamento pesado. A empresa, há dois anos, ameaçou cancelar uma fábrica planejada para Jacareí; em 2014 retomou o projeto que, agora, está na lista, com previsão de US$ 170 milhões.

    A colheita chinesa tem pelo menos um fruto duvidoso, o projeto de fabricação de um minicarro em sociedade com a nacional Skill Participações, com a qual os chineses da DFM já assinaram um contrato de US$ 10 milhões. No governo, não se esquece a atuação do proprietário da empresa brasileira, Washington Armênio Lopes, associado aos coreanos da Asia Motors, que obteve incentivos fiscais, importou utilitários e nunca construiu a fábrica prometida por contrato.

    O próprio corredor bioceânico com o Peru divide opiniões na equipe econômica, mas tem simpatizantes no Itamaraty e no Planalto. Para as autoridades brasileiras, o maior avanço do acordo a ser assinado com Li Keqiang é a possibilidade de por sob supervisão oficial diversos projetos de investimento hoje dispersos por várias e regiões e áreas de interesse.

    A comissão a ser criada para seguir o andamento desses projetos combina bem com outra iniciativa em preparação pelo governo, a “Sala de Investimento” a ser montada pelos ministérios do Planejamento e do Desenvolvimento, com capacidade de atender potenciais investidores – em infraestrutura e na indústria – com informações e apoio para vencer a burocracia nacional.

    É consenso no governo brasileiro de que está encerrada a fase de enormes superávits comerciais com a China, embalados na alta dos preços das commodities, que ainda representam 80% das vendas externas do Brasil àquele país. Uma maneira de compensar, em curto prazo, os dólares perdidos no comércio é atrair investimentos, que, no caso dos chineses, costumam vir desacompanhados de grandes condicionalidades políticas ou exigências para reformas macroeconômicas – ao contrário do que se passa nas negociações com governos e investidores da Europa e Estados Unidos.

    No campo comercial, a visita de Li Keqiang permite ao Brasil cobrar promessas importantes dos chineses que ainda não se realizaram. O governo brasileiro busca confirmação de contratos para compra de aviões da Embraer e tem grande expectativa de, finalmente, assinar dois protocolos que reabrirão o mercado chinês às vendas de carne in natura brasileira.

    Uma missão de empresários esteve na semana passada na China, participando de uma feira de alimentos, e técnicos do ministério da Agricultura foram ao país negociar protocolos de liberação da importação de carne brasileira e de procedimentos rápidos (“fast track” para habilitação de cerca de 20 frigoríficos, que já têm adiantado o processo de certificação pelas autoridades chinesas.

    O Brasil exporta carnes à China, via Hong Kong, o que reduz os ganhos do produtor brasileiro e impede a consolidação de marcas no promissor mercado chinês. A abertura das vendas diretamente à China é uma das prioridades da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), que, contando com a liberação as importações após a visita de Keqiang, já planeja para junho uma missão empresarial e política para promover o produto brasileiro com autoridades e até associações de consumidores chineses.

    Esses movimentos entre Brasil e China ocorrem em paralelo a uma impressionante ofensiva chinesa junto a outros países do grupo BRIC (com Índia, Rússia e África do Sul). Mas isso é assunto para próxima coluna.

    Sergio Leo é jornalista e especialista em relações internacionais pela UnB. É autor do livro “Ascensão e Queda do Império X”, lançado em 2014.

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  5. Novo programa tenta atrair investidor

    Por Francisco Góes | Do Rio

    O Brasil avançou na infraestrutura de transportes nos anos 2000, mas algumas áreas da logística andaram melhor do que outras ao longo do período. Houve concessões bem-sucedidas em rodovias e aeroportos. Nos portos, apesar de uma nova lei, as licitações não deslancharam. O mesmo ocorreu nas ferrovias, segmento em que a construção de novos trechos ainda é uma promessa.

    Na visão de especialistas, as concessões ao setor privado poderiam ter se desenvolvido mais rapidamente. Agora, no começo do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o governo quer acelerar o programa de concessões. A iniciativa busca atrair investidores e permitir a melhoria na infraestrutura logística brasileira, ainda deficiente, abrindo espaço para a retomada do crescimento econômico do país mais à frente.

    Os números de investimento em perspectiva para o setor de infraestrutura de transportes são promissores. E indicam que o Brasil, pelo seu tamanho e escala, tem condições de atrair investidores nacionais e estrangeiros.

    Os investimentos em logística, considerando rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, podem chegar a R$ 177,1 bilhões entre 2015-2018, estima o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A projeção considera investimentos públicos e privados, projetos novos e já contratados, os quais podem ser ou não financiados pelo próprio banco.

    “Há bastante demanda”, disse, recentemente, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ao ser questionado se há potencial para aumentar os investimentos privados em infraestrutura no Brasil. Ele afirmou que, nos últimos cinco anos, o setor privado investiu cerca de US$ 200 bilhões em infraestrutura em áreas como energia, comunicação e logística, excluindo óleo e gás. Levy fez o comentário nos Estados Unidos, onde conversou no mês passado com investidores sobre medidas que o governo está adotando para ampliar os investimentos. Com esse espírito, o governo planeja lançar este mês um novo programa de concessões.

    Consultores e especialistas entendem, porém, que, para o investimento no setor ser bem-sucedido, é preciso haver planejamento de longo prazo e modelos regulatórios estáveis, que assegurem a confiança dos investidores. “Nos últimos dez, 15 anos, o Brasil registrou importante desenvolvimento em diferentes setores da infraestrutura”, disse Cheryl Hanway, executiva da International Finance Corporation (IFC) responsável por infraestrutura no Brasil. A IFC é a unidade do Banco Mundial (Bird) para financiamento ao setor privado. Ela disse que um dos destaques foi o setor de rodovias.

    Há hoje no Brasil quase 60 concessões rodoviárias com cerca de 20 mil quilômetros de malha administrada pelo setor privado. Em abril, o governo leiloou a Ponte Rio-Niterói e obteve deságio no pedágio de 36,67%. Houve investimento privado também em aeroportos, disse Cheryl.

    Foi um período interessante, segundo ela, para investidores nacionais e estrangeiros. “O Brasil tem a escala do mercado, o que o torna particularmente interessante para investidores privados.” Nos portos, embora exista uma nova lei, de 2013, ainda há incertezas, e as ferrovias são um setor desafiador, disse. Ela acredita, porém, que esses setores têm potencial para atrair novos investimentos.

    No passado recente, as oportunidades anunciadas pelo governo não se traduziram, em sua maioria, em novas expansões de infraestrutura. Em 2012, o governo lançou o Programa de Investimento em Logística (PIL). “Foi um programa muito amplo para executar em curto espaço de tempo”, reconheceu fonte do governo. Com exceção de um grupo de rodovias licitadas, o PIL pouco avançou.

    O programa previu investimentos de R$ 133 bilhões em rodovias e ferrovias. Só de expansão de malha ferroviária, estimou dez mil quilômetros divididos em 12 lotes, que seriam executados dentro de um novo modelo que separa a construção da operação com garantias de demanda da estatal Valec. Com o ajuste fiscal, porém, o governo pode não implementar esse modelo como foi imaginado.

    Paulo Fernando Fleury, presidente do ILOS Supply Chain, disse que um dos problemas foi a longa discussão sobre a Taxa Interna de Retorno (TIR) das concessões em que setores do governo queriam limitar a rentabilidade dos investidores. “O governo aprendeu muito”, afirmou. Hoje o governo parece reconhecer que o sucesso das concessões depende de equilíbrio entre modicidade tarifária, remuneração do investimento e garantia de volumes mínimos de investimento nas concessões. “Se a tarifa [de pedágio nas rodovias] é muito baixa, o concessionário investe pouco para garantir a remuneração”, disse um técnico do governo.

    Também houve leilões de aeroportos, considerados sucesso por alguns especialistas, mas questionados por outros. Cláudio Frischtak, da Inter B. Consultoria, entende que nesses leilões o governo expôs o setor público, via Infraero, a “dezenas de bilhões de reais” em obrigações nos próximos anos que deveriam ser absorvidas pelo setor privado. Ele disse que o Brasil tem investido pouco e mal em transportes, algo como 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano.

    “Teria que investir três vezes mais. Agora o resultado transparece em gargalos.” A consequência é um custo logístico elevado. “O investimento poderia ter sido melhor e realizado a um custo menor para o Tesouro.” Frischtak avaliou, porém, que o governo tem uma visão sobre o que é preciso fazer. “Há uma agenda que não é trivial porque é preciso corrigir os erros.”

    Acelerar investimentos em infraestrutura dentro de programas de concessão ambiciosos como o do Brasil impõe desafios. Um deles se refere à grande quantidade de projetos que precisam ser estruturados. E a elaboração de projetos é reconhecidamente um gargalo do setor público. Para tentar resolver esse problema, o governo vem estimulando que o setor privado faça estudos de viabilidade de projetos por meio do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI).

    No mês passado, o Ministério dos Transportes prorrogou para junho a entrega dos estudos técnicos que vão embasar as novas concessões de quatro trechos de rodovias federais a serem oferecidas em leilões. Em nota, o Ministério dos Transportes disse que o Brasil vem se mantendo entre os cinco países que mais atraem investimento estrangeiro direto, com média de US$ 60 bilhões por ano na economia de forma geral. “Por isso, o governo tem buscado, cada vez mais, ampliar a participação do setor privado por meio dos programas de concessões e consultas por PMI”, afirmou o Ministério. Na área de ferrovias, foram lançadas PMIs para seis trechos.

    Outro ponto importante para o sucesso das concessões é justamente a garantia de financiamentos, o que se torna mais desafiador no atual momento de ajuste fiscal.

    O Ministério dos Transportes afirmou, na nota, que realinhou diretrizes, as quais estabelecem a continuidade das obras e empreendimentos já iniciados pelo governo. “As obras em andamento não serão paralisadas.” Citou como exemplo as ferrovias, em que há obras em 2.677 quilômetros, envolvendo a Ferrovia Norte-Sul, a de Integração Oeste-Leste (FIOL) e a Transnordestina. Em 2014, após 25 anos à espera de conclusão, o governo inaugurou trecho de 855 quilômetros da Norte-Sul ligando Palmas (TO) a Anápolis (GO).

    Em 2014, o Ministério disse ter investido R$ 18,7 bilhões, e completou: “Há a perspectiva de uma parcela do montante previsto para 2015 ser contingenciado em função do ajuste fiscal, levando à realocação e hierarquização das ações previstas para o ano de 2015.”

    No cenário de ajuste fiscal, o capital privado e outras fontes de recursos serão importantes para financiar a infraestrutura. O BNDES, grande financiador do setor, terá papel diferente do registrado nos últimos anos, quando ampliou empréstimos com base na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Agora, deverá atuar complementando o capital privado. Nessa estrutura, ganha relevância a emissão de debêntures pelas empresas que captam junto ao banco em TJLP. “Queremos ser parte do funding e não a única fonte”, disse Cleverson Aroeira, chefe do departamento de transportes e logística do BNDES. “A presença de operadores e investidores privados nas concessões é saudável porque melhora a qualidade dos projetos.”

    Em 2014, o BNDES desembolsou R$ 11,4 bilhões em logística – 6% dos R$ 187 bilhões liberados pelo banco. Se o BNDES reduzir de tamanho, a tendência é que áreas prioritárias como transporte e logística, mobilidade urbana, energia e inovação ganhem participação relativa no desembolso total. A expectativa é que os desembolsos para logística cresçam 16,3% em média ao ano, entre 2015 e 2017, atingindo entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões ao fim desse período.

    A IFC acredita que o BNDES continuará a ser um ator importante para a infraestrutura. “A longo prazo, nossa visão é que o Brasil vai acessar fontes privadas de financiamento locais e, eventualmente, terá que acessar também investidores estrangeiros, pois seu programa de infraestrutura é grande e inclui muitos projetos novos. Além disso, o país continua tendo uma taxa de poupança interna limitada, então vai precisar de recursos externos para seu programa de infraestrutura”, diz Héctor Gomez, diretor da IFC no Brasil.

    A IFC tem no Brasil carteira cujos desembolsos somaram US$ 4,32 bilhões no ano fiscal de 2014, encerrado em 30 de junho do ano passado. Do total, cerca de US$ 1,3 bilhão envolve projetos de infraestrutura, incluindo financiamentos e participações em empresas. Os números não incluem áreas de petróleo e gás e telecomunicações.

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  6. CELSO MING: E O UBER? PODE OU NÃO PODE?

    Para o juiz Roberto Luiz Corcioli Filho, da 12ª Vara Cível de São Paulo, o Uber proporciona um serviço público clandestino e, portanto, ilegal. Tem de ser proibido, como consta em sentença de 28 de abril.

    Mas, afinal, o que é o Uber? Funciona assim. Você mora em Perdizes e quer ir para o aeroporto. Baixa o aplicativo Uber, cadastra seu cartão de crédito e solicita um veículo. Em média, cinco minutos depois chega um carrão, em excelentes condições, com um motorista bem vestido e que só vai puxar conversa se você der trela. A tarifa, calculada de acordo com o tempo rodado e quilometragem percorrida, é paga obrigatoriamente com cartão de crédito, via aplicativo. A comissão do Uber corresponde a 20% do valor da corrida.

    Opera em cerca de 300 cidades de 56 países (veja a ficha ao abaixo). No Brasil, chegou com a Copa do Mundo, no Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

    Pretende ser um serviço de excelência. Os motoristas são cadastrados na plataforma, têm obrigatoriamente de possuir carteira de habilitação com autorização para exercer atividade remunerada, precisam ter seguro que dê cobertura ao passageiro e não podem ter antecedentes criminais. No fim de cada corrida, motorista e usuário se avaliam mutuamente, por meio de inserção de estrelas na plataforma, como com os hotéis.

    No mundo inteiro, os taxistas encararam a novidade como concorrência desleal e predatória. Argumentam que pagam o olho da cara por taxas e alvarás e são submetidos a duras fiscalizações, exigências não observadas nos serviços do Uber. No dia 8 de abril realizaram protestos em São Paulo. Tudo o que conseguiram foi promover o novo serviço. A gente sabe disso porque, no mesmo dia, o volume de downloads da plataforma foi cinco vezes maior do que a média.

    O Uber argumenta que não é uma empresa de transporte. Apenas detém tecnologia especial que põe em contato motoristas particulares e interessados em locomoção, dentro da nova lógica de modelo de negócios, que é a economia colaborativa (sharing economy).

    Na prática, não é muito diferente do que faz o site Airbnb, que no mundo inteiro aproxima proprietários de imóveis e interessados em aluguéis residenciais, que pode ser apenas um quarto de fundos, por temporada. Concorrem, sim, com hotéis e pousadas sem as obrigações fiscais e exigências de lei.

    Cálculos informais veiculados na mídia especializada apontam avaliação de US$ 40 bilhões para o Uber, mesmo sem ser ele proprietário de veículos nem empregar motoristas. Para comparar, as ações da Hertz global, empresa de locação de veículos, não valem no mercado mais do que US$ 9,5 bilhões, como calcula a Consultoria Economática.

    A questão de fundo é a de que as inovações sempre contrariam interesses. Quando Gutenberg inventou a imprensa, milhares de monges que passavam a vida inteira copiando manuscritos e desenhando iluminuras, de repente ficaram sem função.

    O Skype e o aplicativo Whatsapp, por exemplo, estão abocanhando o mercado de operadoras de telefonia, que produzem serviços públicos sob concessão. Mas nem por isso estão sendo considerados atividades piratas nem predadores clandestinos e ilegais. Os aplicativos 99Taxis e Easy Taxi estão eliminando a necessidades de pontos e vêm derrubando seu “valor informal” de mercado.

    A condenação do juiz Corcioli Filho, proferida em caráter liminar, não é pioneira. O aplicativo já foi proibido no Estado de Nevada (Estados Unidos) e teve serviços suspensos em cidades da Alemanha, da Espanha, da Índia e de Portugal. Em 24 jurisdições dos Estados Unidos, regulamentações para modelos de negócio como o do Uber já foram aprovadas. Na Califórnia, o serviço foi considerado inovador e a empresa passou a ser classificada juridicamente como “companhia de transporte em rede”. Em outras localidades, o aplicativo foi suspenso até que seja regulamentado.

    Quando, no início do século 19, aumentou a mecanização nas fábricas da Inglaterra, os trabalhadores sentiram que seus empregos estavam ameaçados e puseram-se a destruir teares mecânicos. O impulso original dos taxistas é dar o mesmo tratamento à nova concorrência.

    Mas o Uber está tendo tanta aceitação que parece difícil eliminá-lo pura e simplesmente. Se for tirado de circuito, outro serviço, com outro nome e outro esquema de atuação, tenderá a aparecer em seu lugar. Mais sensato parece submeter a novidade a regulamentação. De todo modo, os aplicativos (e não só o Uber) já estão mudando drasticamente os serviços de táxi. E para melhor.

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    1. BACTÉRIA RESISTENTE JÁ É AMEAÇA GLOBAL, DIZ OMS

      Genebra, 02/05/2015 – A resistência a antibióticos se transformou em uma “ameaça global” e doenças que eram curadas com relativa facilidade até há pouco tempo podem voltar a matar cerca de 10 milhões de pessoas até 2050. O alerta faz parte de um plano que será apresentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) neste mês, na esperança de combater a resistência.

      Os dados apontam para um cenário alarmante: pelo menos sete bactérias diferentes responsáveis por doenças como pneumonia, diarreia ou infecções sanguíneas começam a ganhar resistência. Pelo menos dois produtos usados até hoje já não funcionam em metade da população, entre eles o antibiótico contra infecções urinárias causadas pela bactéria E.coli.

      Em 2013, a OMS calcula que 480 mil novos casos de tuberculose foram detectados por conta da resistência aos remédios em mais de cem países. No caso da malária, a entidade considera a resistência como uma “preocupação urgente de saúde pública”, diante do impacto em regiões inteiras.

      Para a OMS, antibióticos se transformaram no pilar do desenvolvimento da medicina no século 20. Mas chegou o momento de agir para não perder o que o mundo atingiu. Numa era “pós-antibiótico”, a realidade é que muitos morreriam de doenças que já foram controladas.

      Para a indústria farmacêutica mundial, o crescimento da resistência microbiana pode ter repercussões até no PIB mundial, com uma queda entre 2% a 3,5%. Na Federação Internacional das Indústrias Farmacêuticas, que reúne as maiores multinacionais do setor, as doenças causadas por bactérias cada vez mais resistentes aos antibióticos disponíveis no mercado aparecem como prioridade. Mas o grupo insiste para a necessidade de novos investimentos em medicamentos.

      A OMS, em seu relatório publicado nesta semana sobre o mesmo assunto, também alerta para a falta de novos medicamentos. Segundo ela, nenhuma nova classe principal de antibióticos foi desenvolvida desde 1987. E não há resposta imediata. Além da demora para desenvolver um novo medicamento – cerca de 10 a 20 anos -, a indústria farmacêutica vê seu retorno financeiro restrito a um prazo considerado extremamente longo, o que desestimula o investimento.

      Planos nacionais
      Por isso, a OMS insiste que apenas desenvolver novos remédios não será suficiente. A entidade vai recomendar que planos nacionais sejam desenvolvidos sobretudo em países emergentes. Mas a Federação das Indústrias Farmacêuticas diz que não há tecnologia nesses países.

      Já para Fernando Bellisimo, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o problema é mais uma questão de hábitos. “No Brasil, existe o costume de acreditar que o médico mais eficiente é aquele que prescreve remédios. Infelizmente, pessoas continuam acreditando que antibióticos combatem doenças virais (o que não é verdade)”, disse.

      Bellissimo defende foco na prevenção e no combate à proliferação das bactérias resistentes. “É preciso maior atenção à higiene dentro dos hospitais.” (Jamil Chade, correspondente)

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  7. FERNANDO DANTAS: A CARA TELEFONIA CELULAR NO PAÍS E O CUSTO BRASIL

    O serviço de voz da telefonia móvel brasileira é caríssimo, quando se fazem comparações internacionais. Segundo o Relatório Global de Tecnologia da Informação de 2014 do Fórum Econômico Mundial, o Brasil, com um custo de US$ 0,65 (em paridade de poder de compra) por minuto, tem o nono preço mais caro numa lista de 148 países.

    O economista Maurício Canêdo, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que realizou pesquisas recentes sobre a telefonia no Brasil, nota que há um aparente paradoxo em relação ao serviço de voz da telefonia móvel no País: o preço é muito caro, mas há indicações de que existe um nível bom de competição entre as empresas, e, na verdade, os lucros das operadoras são muito baixos em termos relativos, quando são feitas comparações internacionais.

    Num índice de concentração que varia de zero a um (sendo um o máximo de concentração), o Brasil apresenta 0,25, o que o coloca como o quinto menos concentrado numa lista de 48 países. Com concentração no mercado de telefonia celular ainda menor que a brasileira só constam a Rússia (0,24), o Reino Unido (0,22), o Paquistão (0,22) e a Índia (0,18). Alguns exemplos de países de nível de desenvolvimento parecido com o do Brasil e concentração bem maior no mercado de telefonia celular são Colômbia (0,46), Peru (0,46), China (0,47), México (0,54) e Filipinas (0,55).

    Diante desse fato, continua Canêdo, uma possível explicação para o alto custo do serviço de voz dos celulares no Brasil seria o de que a empresas que atuam no setor, ainda que haja pouca concentração, consigam agir de forma cartelizada. Para ele, entretanto, essa hipótese não se coaduna com a baixa rentabilidade comparativa do setor no Brasil.

    Na mesma lista de 48 países, o Brasil apresenta a menor margem Ebitda (Ebtida sobre receita líquida) no serviço de voz da telefonia móvel, com 0,26. A título de comparação, o Chile tem 0,31; a China, 0,36; a Argentina, 0,36; os Estados Unidos, 0,39; o Peru, 0,40; o México, 0,44; e a Colômbia, 0,47. Os dados de concentração e de margem Ebitda são de 2014 e foram calculados por uma instituição financeira internacional.

    “Se as operadoras brasileiras operassem como cartel, elas teriam de ser muito ineficientes para ter margens comparativamente tão baixas”, nota o economista. Resta, portanto, buscar outros “suspeitos”, e, na avaliação de Canêdo, a alta carga tributária e o elevado custo de capital provavelmente são os principais responsáveis pelo caro serviço de voz da telefonia celular no Brasil. Trata-se, portanto, do velho problema do “custo Brasil”.

    Ele nota que a tributação e outros tipos de taxas incidentes no Brasil correspondem 43,16% do custo, comparado a 14,66% nos Estados Unidos – onde o custo tributário é considerado muito alto.

    Porém, análises preliminares realizados por Canêdo indicam que mesmo a alta carga tributária não explica totalmente o alto preço da telefonia celular no Brasil, restando uma defasagem que ele considera provável que derive do elevado custo de capital no País. “No Brasil é mais caro construir rede, porque o custo de capital é altíssimo”, conclui o pesquisador.

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  8. Cmarques, essa vai em sua homenagem 🙂 ……..gostei do texto, espero que o amigo goste!
    abs

    Como os investimentos “seguros” podem destruir sua carteira

    Por Ben Steverman | Da Bloomberg, de Nova York
    Se você procura uma fonte de renda consistente para quando se aposentar, provavelmente já ouviu falar de algumas estratégias de investimentos nos EUA. Como uma ação que paga dividendos regularmente, ao mesmo tempo em que lhe permite ganhar com a valorização na bolsa. Bônus municipais são garantidos por governos e geralmente a renda proporcionada por esses títulos não é tributável.

    Mas após anos de juros baixos e alta dos mercados de ações, estas estratégias antes consideradas conservadoras podem na verdade estar colocando os americanos em situações de risco. Eis onde os investidores em renda têm errado:

    Eles investem de uma maneira muito restrita
    Quando a firma de investimentos on-line SigFig analisou as carteiras de 300 mil investidores, constatou que as pessoas que se concentraram na renda – em vez de crescimento – estão conseguindo a maior parte dessa renda de um número muito restrito de fontes. Dos investidores em renda com mais de 40 anos, 52% estão obtendo suas rendas inteiramente de três ou menos ações pagadoras de dividendos. Trinta e um por cento deles dependem apenas de uma ação pagadora de dividendos.

    “Estar tão concentrado em poucas ações geradoras de renda é perigoso”, alerta Jason Hsu, cofundador e vice-presidente da Research Affiliates. Com apenas umas poucas ações, os investidores estão violando uma regra importante dos investimentos: espalhe seu dinheiro para reduzir o risco de grandes perdas e tornar a carteira menos volátil. Geralmente os consultores colocam os clientes em fundos que têm em carteira centenas de ações e bônus de uma variedade de categorias. Em outubro, a SigFig criou um portfólio de “renda diversificada” que produz renda a partir de oito diferentes fundos negociados em bolsas de valores (ETFs), com exposição a ações dos Estados Unidos e internacionais e cinco tipos de bônus.

    Eles estão cedendo aos argumentos de vendas
    Como os juros estão muito baixos, muitos investidores mais velhos anseiam desesperadamente por renda. Alguns corretores estão aproveitando esse desespero para vender produtos caros, muito complicados e equivocados. Esta é a conclusão de um novo relatório da Securities and Exchange Commission (SEC) e da Financial Industry Regulatory Authority (Finra). As autoridades reguladoras constataram que “os corretores podem estar recomendando transações inadequadas” que os mais velhos não entendem.

    Os investimentos mais preocupantes aparecem nos produtos estruturados, trusts de investimentos imobiliários não negociados, produtos de anuidades variáveis e investimentos alternativos como ETFs de alavancagem inversa. Os investidores, alguns com mais de 90 anos, acabam tendo seu dinheiro preso nessas aplicações de alto risco.

    Eles estão apostando em investimentos sobrevalorizados
    Atrelar sua aposentadoria a um número pequeno de empresas já é arriscado o suficiente. Mas a situação do mercado de ações no momento contribui para os riscos: pelos padrões históricos, as ações americanas que pagam dividendos estão caras, diz Hsu. O índice Dow Jones U.S. Dividend 100 Index acumula um ganho de 181% nos últimos seis anos. Esses preços refletem altas expectativas que poderão ser frustradas se os lucros ou a economia tropeçarem. Se as pessoas estão dispostas a investir em empresas fora dos EUA, diz Hsu, elas podem encontrar algumas que pagam dividendos saudáveis a valorizações mais razoáveis.

    Os bônus municipais – títulos de dívida garantidos por municípios, estados e governos locais – também vêm se saindo muito bem ultimamente, com o índice S&P Municipal Bond Index mostrando um retorno de 5,8% no último ano. Os bônus municipais podem ser livres de impostos, o que os torna populares, diz Marilyn Cohen, presidente e executiva-chefe da Envision Capital Management. Cohen acredita que os “munis” continuarão se saindo bem, mas afirma que é preciso diversificar, espalhando sua exposição para bônus com prazos mais curtos.

    Eles estão assumindo riscos
    Infelizmente, os investidores são atraídos pelos bônus mais arriscados porque eles também oferecem as maiores recompensas. Os “muni bonds” mais arriscados, por exemplo, são emitidos por governos com problemas fiscais, incluindo os de Chicago, Porto Rico e Nova Jersey, afirma Cohen. “Melhor contornar esses terrenos minados.”

    As ações de alto rendimento, que Hsu chama de “junk stocks” apresentam os mesmos riscos. Os pagamentos de dividendos de empresas problemáticas podem parecer generosos, mas há uma boa chance de essas companhias não conseguirem continuar pagando-os.

    No cenário atual, para obter a renda de que necessitam, os investidores precisam se proteger espalhando seus ativos entre o maior número possível de investimentos geradores de renda. E devem estar cientes de que qualquer investimento que promete um grande pagamento, quase que certamente é algo bom demais para ser verdade. (Tradução de Mario Zamarian)

    Ben Steverman é colunista da Bloomberg.

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  9. PLANALTO APOSTA EM NOVO PACOTE DE OBRAS

    Brasília, 25/4/2015 – Ao comandar uma ampla reunião no fim de semana no Palácio da Alvorada com os principais ministros e dirigentes de bancos estatais, a presidente Dilma Rousseff tenta deixar para trás uma agenda negativa pela qual atravessa desde o início do ano.

    Na sexta-feira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou pela primeira vez publicamente, em um encontro com petistas de São Paulo, que a sua sucessora crie fatos positivos em seu governo de forma a abrir uma saída para a crise política que se arrasta desde a posse. Aliados do Congresso também cobram de Dilma uma agenda para reanimar a economia.
    A aposta de Dilma para corrigir o rumo do governo e destravar os investimentos está em um novo pacote de concessões na área de infraestrutura.

    O plano é oferecer para a iniciativa privada até quatro novos trechos de rodovias e três aeroportos, além de ferrovias e portos. A maior parte dos projetos está na gaveta do governo desde o ano passado.

    As estradas federais que já foram alvos de estudos pela iniciativa privada e pelo governo e que devem ir a leilão são a BR-163, entre o Mato Grosso e o Pará; a BR-364, que segue de Goiás para Minas Gerais; a BR-364, a partir de Mato Grosso até Goiás; e um eixo no Paraná, ligando as BRs-476, 153, 282 e 480. Essas concessões, somadas à da Ponte Rio-Niterói, já realizada, somam 2.625 quilômetros de rodovias. Com prazo de 30 anos, devem atrair investimentos de R$ 17,8 bilhões. A característica comum a elas é privilegiar rotas de escoamento para o agronegócio. “Somos defensores dessas concessões. Onde as obras são feitas pelo setor publico é uma tristeza, não conseguem andar”, comentou o senador Blairo Maggi (PR-MT).

    No setor aeroportuário, o governo promete colocar na mesa de negociações os aeroportos de Salvador, Florianópolis e Porto Alegre, como já havia informado o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. O objetivo é atrair novos operadores internacionais e incentivar a formação de consórcios.

    O setor ferroviário revela uma das principais mudanças de postura do governo. Conforme mostrou reportagem do Estado na semana passada, a proposta analisada é fazer um leilão para entregar à iniciativa privada dois trechos recém-construídos da Ferrovia Norte-Sul. A estatal Valec acaba de concluir uma malha de 855 km da ferrovia, entre Porto Nacional (TO) a Anápolis (GO). Até o início do ano que vem, uma extensão de 669 km da Norte-Sul também estará pronta, ligando Ouro Verde de Goiás (GO) a Estrela d’Oeste (SP).

    A proposta de outorga da ferrovia é defendida pelo Ministério da Fazenda, por conta do potencial de arrecadação que promete. Avalia-se que apenas um dos trechos da Norte-Sul teria capacidade de movimentar cerca de R$ 3 bilhões em outorga, com concessão de 30 anos.

    Reunião. Entre os ministros que estiveram com Dilma hoje (25) no Palácio da Alvorada estavam Aloizio Mercadante (Casa Civil), Joaquim Levy (Fazenda), Kátia Abreu (Agricultura), Eduardo Braga (Minas e Energia), Nelson Barbosa (Planejamento), Izabella Teixeira (Meio Ambiente), Antonio Carlos Rodrigues (Transportes) e Edinho Silva (Comunicação Social). Participaram da reunião ainda o vice-presidente de infraestrutura do Banco do Brasil, César Borges, e a presidente da Caixa, Miriam Belchior. (André Borges, Ricardo Brito e Talita Fernandes)

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  10. Todo mundo só sabe reclamar das bolhas, mas ninguém faz nada

    Por James Saft | Da Reuters, de Nova York

    As bolhas são um pouco parecidas com o clima: todo mundo reclama mas ninguém faz nada a respeito. Esta é uma interpretação da mais recente pesquisa feita entre gestores de fundos pelo Bank of America Merrill Lynch (BofA), que constatou uma convicção crescente de que tanto as ações globais quanto os bônus estão supervalorizados e que “as bolhas” são o maior risco de volatilidade que eles enfrentam. A proporção dos entrevistados que acham que as ações e os bônus estão valorizados demais, em comparação aos que acham que não, é a maior desde pelo menos 2003, quando o dado começou a ser compilado.

    Os participantes da pesquisa, que juntos gerenciam aproximadamente US$ 400 bilhões em ativos, demonstram até mesmo uma grande percepção sobre o fato que tem mais chance de acabar com essa sobrevalorização: 85% acreditam que o Federal Reserve [Fed, o banco central americano] vai aumentar as taxas de juros este ano.

    Mesmo assim, apesar da percepção razoável sobre onde estamos nos mercados e para onde podemos estar caminhando, são poucas as evidências de que os gestores de fundos estão agindo de acordo com suas crenças.

    Desde que a pesquisa foi realizada, os mercados prosseguem na mesma direção que estiveram nos últimos meses: os mercados de ações em alta e os rendimentos dos bônus em queda.

    Tome, por exemplo, o Etsy, o mercado on-line para produtos artesanais que viu o preço de sua ação quase dobrar depois da abertura de capital realizada na quinta-feira, dia 16. Com um valor de mercado de cerca de US$ 3,5 bilhões, a companhia que naturalmente não tem lucro está sendo negociada a uma relação de preço sobre vendas de 32.

    Ou observe a bolsa da China, se você tiver estômago. Apesar de sua economia estar desacelerando, as ações se encontram numa valorização impetuosa nos últimos meses. A Bolsa de Valores de Xangai mais ou menos dobrou de valor em um ano e a relação entre preço e lucro (P/L) do índice ChiNext de ações de pequena capitalização de mercado se aproxima dos três dígitos. Ela está em 90 e os empréstimos de margem já aumentaram 30% somente este ano.

    E isso diz respeito apenas às ações, que poucos gestores de fundos consideram estar mais sobrevalorizadas que os bônus. Nos mercados de bônus, o México, que esteve em default por cerca de um terço do século passado, acaba de fazer uma emissão de títulos com prazo de cem anos. E denominados em euros. Você sabe, aquela moeda que poderá em breve ter uma mudança de alinhamento.

    Portanto, enquanto você pode ganhar um juro anual de 27% com um bônus grego de dez anos, o rendimento médio sobre o universo inteiro dos bônus soberanos alemães acaba de ficar abaixo de zero. Ouvi falar dos fundos de bônus “high yield” [considerados mais arriscados, portanto de alto rendimento], mas ainda não recebi o material de propaganda do “Guaranteed Loss Held To Maturity Bond Fund”.

    Michael Harnett, estrategista-chefe de investimentos do BofA Merrill Lynch (BofA), tem um bom palpite sobre o que está acontecendo. “A pesquisa de abril oferece mais uma prova de que os investidores globais estão se antecipando à política monetária global”, diz ele.

    Cá entre nós, rapazes, antecipação significa negociar antes de uma contraparte, geralmente um cliente. O que os gestores de recursos estão fazendo é apostar que serão espertos o suficiente para lucrar com as ações de um idiota maior até o momento em que o idiota ficar esperto ou mudar suas táticas.

    A diferença entre essa mania do mercado e esses dois é que o mais idiota no momento não é aquele que está fazendo operações de “day trade” com ações ou mesmo um magnata qualquer, e sim os bancos centrais globais. Este é o melhor tipo de idiota para se ter: aquele com uma máquina de impressão.

    Os gestores de fundos “sabem” que o BCE [o banco central europeu] continuará comprando títulos de dívida da zona do euro, assim como “sabem” que o Federal Reserve começará a aumentar os juros mais para o fim do ano. O que eles imaginam é que darão o fora a tempo. Eles acham que, ao contrário do investidor que faz operações de “day trade” ou um magnata, os bancos centrais globais vão na verdade nos dizer quando pretendem parar de apoiar o mercado.

    E talvez eles digam. Talvez venhamos a saber quando eles pretendem fazer isso. E talvez deixemos o prédio antes que o idiota maior pare de comprar.

    Mesmo assim, fazer avaliações complexas e depois ignorá-las totalmente em favor de adivinhar o que um grupo de burocratas pretende fazer é uma maneira e tanto de conseguir um valor agregado bem menor para os clientes. Não dá para não pensar em Ben Bernanke, que na semana passada fez a transição completa: não é mais um burocrata, e sim um adivinho contratado por um hedge fund.

    Lembre-se também de que os gestores de recursos, com exceção de umas poucas anomalias, não são pagos para ficar longe das bolhas. Eles são pagos para bater seus referenciais e, quando o mercado está em alta, é preciso ser uma pessoa incomum para ficar de fora da pista de dança. (Tradução de Mario Zamarian)

    James Saft é colunista da Reuters

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  11. CELSO MING: COMEÇAR DE NOVO

    O tão aguardado balanço auditado da Petrobras não chegou a surpreender porque, diante de tanta incerteza, todas as possibilidades estavam em aberto.

    Já é fato fortemente positivo ter saído um balanço auditado, algo que parecia impossível desde novembro. Provavelmente apenas dentro de algumas semanas será possível dispor de avaliação mais segura sobre os critérios adotados. Dá para dizer que foi dado um passo importante para sanear a empresa. A Petrobras pode sair daí mais enxuta, porém mais sadia.

    Também tem de ser visto se a predação praticada sistematicamente pelos políticos está definitivamente afastada e se as políticas do governo para o setor deixarão de ser tão prejudiciais como foram para a Petrobras.

    Na edição de terça-feira, esta Coluna apontou providências urgentes que se tornaram necessárias depois das baixas do balanço. Mas há outras pedindo ação e, talvez mais do que isso, clareza.

    A derrubada dos preços do petróleo em quase 50% obrigou todas as empresas do setor a reexaminarem a viabilidade de seus negócios. A diretoria anterior garantia que o custo operacional oscila em torno dos US$ 55 por barril, incluídos aí os custos do transporte. É provável que estes estejam hoje mais baixos, porque boa parte dos custos dos equipamentos também caiu ou ainda vai cair. Atualmente, o tipo Brent, que serve de referência para a Petrobras, está um pouco acima desses US$ 55 por barril. Nem os investidores nem os analistas têm clareza sobre o novo ponto de equilíbrio.

    Ao longo de sua história de sucessos, a Petrobras projetou uma falsa imagem de eficiência. As omissões e a falta de controles de sua diretoria que hoje se conhecem ajudam a compor novo diagnóstico. As demissões feitas ao longo da primeira administração Dilma, com o objetivo de coibir atrasos e decisões desastradas, escancararam graves problemas administrativos. Logo após sua posse, a então presidente da empresa Graça Foster advertiu que investimentos tão mal feitos como os da Refinaria Abreu e Lima, no Recife, e os do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) não poderiam se repetir. Neste último, equipamentos caros ficaram inutilizados porque, no meio do caminho, a Petrobras substituiu seu principal insumo: em vez de nafta, optou pelo gás natural. São confissões de falhas graves de decisão e governança. O presidente Aldemir Bendine garantiu nesta quarta-feira que esta é uma página virada. É esperar para crer.

    A Petrobras também parece mais sujeita a autuações por desrespeito a padrões ambientais, que podem custar multas pesadas. A queima de etapas destinadas a corrigir quebras de cronograma pode ter provocado graves omissões nessa área. São questões recorrentes sobre as quais faltam esclarecimentos.

    Também não foram explicadas as condições dos últimos financiamentos obtidos com os chineses (US$ 3,5 bilhões) e com os bancos estatais do Brasil (R$ 6,5 bilhões), semanas ou dias antes de conhecidos os resultados do balanço. Como puderam instituições financeiras sérias emprestar recursos tão vultosos sem conhecer as reais condições financeiras da empresa? Que garantias foram oferecidas para essas operações?

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  12. 10 sinais de mudanças pró-mercado na agenda de Dilma

    Governo dá mais sinais de adesão a propostas defendidas pelo mercado
     
    Por Bloomberg
     
    15-04-2015

    (SÃO PAULO) – Crescem os sinais de maior adesão do governo a propostas da agenda defendida pelo mercado para assegurar o crescimento sustentado da economia e que, historicamente, sofreram resistências no partido da presidente Dilma Rousseff.
       
    A implementação dessas medidas pode alimentar a recuperação dos ativos brasileiros no médio prazo, embora fatores como a esperada alta dos juros dos EUA e a desaceleração do crescimento da China, além da situação da Petrobras e as próprias políticas do BC para juros e câmbio, possam ter também um papel determinante.
       
    Outra dúvida no mercado é se o ajuste econômico, ainda que se confirme, será feito no ritmo e magnitude necessários para livrar o Brasil da perda do grau de investimento.
         
    Dilma: medidas podem alimentar a recuperação dos ativos brasileiros no médio prazo (Bloomberg)

    A seguir, 10 sinais de mudança na agenda de Dilma:
     
    1) Privatizações – Ainda que nenhum programa formal seja anunciado, governo pode passar ativos relevantes para o setor privado. Mais recente notícia é sobre inclusão de blocos do pré- sal em áreas que Petrobras pode vender no esforço para reduzir seu endividamento; outros ativos da cia. no exterior também podem ser vendidos; Caixa Seguradora e aeroportos também entre possíveis ativos a passarem ao setor privado.  

    2) Coordenação política – A coordenação política do governo foi entregue oficialmente ao vice-presidente Michel Temer, do PMDB. O ministro da Fazenda Joaquim Levy também tem sido atuante nas negociações das medidas do ajuste fiscal. Sem a crise, seria difícil imaginar um político moderado do PMDB e um economista ortodoxo no comando de das áreas mais vitais do governo, o que certamente é motivo de conforto para o investidor.

    3) Corte de gastos – A meta de superávit primário de 1,2% este ano, ainda que não atingida plenamente, pode ser acompanhada de um maior controle de gastos, exemplificado pela tentativa de restringir o acesso ao seguro-desemprego, marcando mudança importante rumo à austeridade. Ao longo do governo do PT, mesmo quando a meta fiscal foi atingida, o superávit foi assegurado pelo aumento de receitas, não pelo corte de gastos.
       
    4) Reforma trabalhista – Defendida por empresários como um dos pontos da redução do chamado ’’custo Brasil’’, e sempre demonizada pelo PT e CUT, a flexibilização do mercado de trabalho tem esperança de avanço com a lei das terceirizações.  

    5) Reforma da previdência – Embora uma reforma mais profunda continue fora de discussão, maiores restrições à concessão de pensões, fonte de gastos bilionários para a Previdência, são uma das medidas do ajuste fiscal em debate no Congresso.  

    6) Ajuste de tarifas – O represamento de preços controlados pelo governo, marca de regimes populistas da América Latina e aplicada muito mais radicalmente na Venezuela, tem sido revertido, levando a inflação anual a superar 8% este ano, ao passo que se abre a possibilidade de um alívio em 2016.  

    7) BC mais hawkish – O Banco Central mais dovish, que baixou juros para recorde histórico no primeiro mandato de Dilma, parece ter ficado para trás. A taxa Selic, em 12,75%, é maior do que o pico anterior, atingido em julho de 2011, já com Alexandre Tombini no comando do BC; se a taxa chegar aos 13,50% precificados nos negócios com juros futuros, será um nível próximo ao último pico da taxa na gestão de Henrique Meirelles, quando a Selic bateu em 13,75% no auge da crise global de 2008.

    8) Câmbio mais livre – Desde que iniciou seu programa de intervenções com swaps em 2013, o BC reduziu gradualmente os volumes de leilões até encerrar o programa totalmente este ano; uma flutuação mais livre, contudo, dependeria de decisão, ainda descartada, de eliminar também as rolagens diárias de swaps.
       
    9) Relações internacionais – Até prova em contrário, Dilma continua parceira dos chamados governos bolivarianos. Contudo, a presidente parece mais inclinada a alternar essa amizade com uma postura mais crítica, como fez nos recentes comentários sobre prisões na Venezuela, ao mesmo tempo em que retoma preparativos para visita aos EUA; uma aproximação com o ’’clube dos ricos’’ da OCDE também está em pauta.  
     
    10) Crédito público – A chamada política ’’parafiscal’’, que envolveu ampliação do crédito dos bancos públicos no primeiro mandato da presidente, também tende a encolher, alinhando-se ao ajuste fiscal; além de BNDES, BB e Caixa Econômica menos generosos, o crédito escolar do FIES, vitrine do governo petista, também passou pela tesoura.

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    1. RICARDO LEOPOLDO: CÂMBIO FORTALECERÁ CONTAS EXTERNAS, INDÚSTRIA E PIB

      A mudança na política cambial pelo governo já colabora para a melhora da percepção de agentes econômicos sobre as perspectivas das contas externas mais equilibradas e de evolução do nível de atividade no Brasil para o longo prazo.

      As expectativas de mercado apuradas pelo BC para o câmbio estão em R$ 3,25 para o final deste ano e oscilam aos poucos nos próximos anos até atingirem R$ 3,35 no término de 2018, quando será encerrado o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, a mediana das projeções para o déficit em contas correntes cai de US$ 77 bilhões para US$ 66 bilhões no período, o que é auxiliado por uma alta do saldo comercial de US$ 4,3 bilhões para US$ 19,87 bilhões.

      A imagem refletida da melhora das contas externas pode ser identificada na expectativa do nível de atividade para o futuro próximo. O efeito substituição das importações e a redução do vazamento de demanda para o exterior devem ajudar para que a produção industrial saia de uma queda de 2,5% em 2015 para uma alta de 2,5% em 2018. E, pelos números apurados pelo BC, isso será fundamental para a recuperação do PIB. A economia deve cair 1,01% neste ano, mas gradualmente vai subir a ponto de apresentar uma elevação, mesmo que modesta, de 2,29% quando a presidente deixar o poder.

      A relevância da nova realidade cambial ganha mais proeminência em Brasília. Em seu discurso no Senado, Tony Volpon, diretor indicado para a área de Assuntos Internacionais do BC, cujo nome foi aprovado pela CAE ontem, apontou que uma “uma melhor relação entre preços transacionáveis e não transacionáveis será um elemento essencial para o equilíbrio das nossas contas externas, como também para a recuperação da competitividade da nossa indústria”.

      A regressão do setor manufatureiro no Brasil é constatada em números pelo IBGE. Em 2014, a indústria total registrou uma participação de 23,4% no valor adicionado (PIB menos impostos), a menor desde 2000.

      O fim da era do real muito apreciado, que por quase 20 anos se tornou um elemento desinflacionário de última instância, traz benefícios à economia num momento de reforço das relações entre o Brasil e os EUA. Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington, nota que a volta do câmbio flutuante protege o País de alguma eventual queixa de autoridades do Congresso americano ou da Casa Branca de que o Palácio do Planalto manipula esse preço relativo a fim de incrementar artificialmente as vendas de produtos e serviços nacionais para aquele país.

      E o salto do câmbio, de R$ 2,655 em 30 de dezembro para a atual marca próxima de R$ 3,04, é importante para remover uma grave inconsistência macroeconômica do País, o que dará espaço para que empresários possam ter um horizonte mais previsível para fazer investimentos superiores a cinco anos de maturação, afirma Italo Lombardi, economista-sênior para América Latina do banco Standard Chartered.

      Um cenário mais positivo para as empresas também surge com uma redução da distância muito grande entre o ritmo de alta da remuneração dos trabalhadores e da produtividade. Nos últimos quatro anos, os salários registraram uma alta nominal média de 9%, analisa Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, com base em dados da PME, PNAD Contínua e Caged. Por outro lado, a produtividade total de fatores subiu em média 0,2% de 2010 a 2014, segundo o Ministério da Fazenda.

      Nova rota
      Mas a mudança da política cambial faz parte de um contexto de correção geral da economia pelo governo, composto pelo ajuste fiscal, sério o suficiente para evitar que o Brasil não perca a nota de grau de investimento perante agências de rating, e combate mais firme da inflação pelo BC, que tem como objetivo levá-la à meta de 4,5% em dezembro de 2016.

      Esse conjunto de alterações adotadas pelo governo deve trazer resultados melhores ao Brasil no médio prazo, mesmo com a queda do preços das commodities, o que reduz os termos de troca do País. Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, aponta que a quantidade de exportações nacionais caíram 1,1% no ano passado, mas estima que subirá 1% em 2015 e avançará 3,5% em 2016. Isso será oportuno para diminuir o saldo negativo das transações correntes de US$ 91,3 bilhões para US$ 80,2 bilhões no período. Com uma previsão de câmbio saindo de R$ 3,10 em dezembro deste ano para R$ 3,55 no encerramento de 2018, Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco, vê o déficit de transações correntes recuando de 3,6% para 2,5% do PIB no período, um nível sustentável para o indicador, dado que a baixa poupança do País precisa ser compensada por importações de capitais.

      É no contexto de correção de política econômica que a indústria vai avançar. A gestão mais harmoniosa das contas públicas, com sensível redução do déficit nominal, que atingiu 6,7% do PIB em 2014, vai reduzir os juros futuros e facilitar a ampliação da Formação Bruta de Capital Fixo, destaca Adauto Lima. A gestão mais eficiente das receitas e despesas do setor público consolidado, além de aumentar a potência da política monetária, reduz o temor de empresários de que em algum momento à frente os impostos subirão, o que reduziria a propensão marginal de elevação dos investimentos.

      A sinergia de ajuste fiscal e monetário tornará viável um ambiente de negócios mais propício a aumentar o crescimento do PIB. E um elemento vital para elevar a FBCF em toda a economia serão os investimentos em infraestrutura, como rodovias, portos, aeroportos e ferrovias, o que deve avançar neste ano e ainda mais em 2016, aponta Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe da Bradesco Asset Management (BRAM). É bem provável que a definição de questões centrais para concessões públicas nestes modais, como taxa interna de retorno e garantias e formas de financiamento, terá maior peso agora dos ministérios do Planejamento e da Fazenda do que da Casa Civil, destaca um líder empresarial que atua no setor.

      A decisão do governo de deixar o câmbio flutuar, num ano de valorização do dólar devido à perspectiva de subida dos juros nos EUA, é uma peça basilar do processo de retificação macroeconômica que tem o aval da presidente Dilma. A persistência dessa política correta, que é surpreendente visto as diretrizes que pautaram seu primeiro mandato, deve colocar o Brasil novamente numa rota de expansão do PIB a partir de 2016. Pode-se antever que, ao final de 2018, o PIB poderá voltar à marca de 3%, com o apoio da retomada da indústria total, cuja participação no valor adicionado pode subir para um marca pouco superior a 27%, o que não é registrado desde 2011.

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  13. Terceirização para todos. Bom para quem?

    Por Guilherme Guimarães Feliciano

    Tramita na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei nº 4.330-C/2004, da relatoria do deputado Arthur Oliveira Maia (SD-BA), cujo texto, em seu derradeiro substitutivo, “dispõe sobre os contratos de terceirização e as relações de trabalho dele decorrentes”. A respeito dele, têm dito os convertidos e os mais incautos que sua aprovação trará benefícios à população brasileira, garantindo mais empregos, afastando a instabilidade decorrente das imprevisíveis decisões judiciais e assegurando, nas palavras do relator, “avanços importantes para a proteção dos milhões de trabalhadores terceirizados do Brasil, que hoje não dispõem de nenhuma legislação protetora dos seus direitos”. Será?

    Saiba o leitor que trabalhadores terceirizados têm, sim, uma estrutura de proteção a seus direitos sociais mínimos, não por lei, mas pela jurisprudência consolidada do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Essa jurisprudência está sintetizada na Súmula nº 331 do TST, pela qual a terceirização é lícita em apenas quatro hipóteses: (a) na contratação de trabalhadores por empresa de trabalho temporário (Lei nº 6.019, de 1974), mesmo em atividades-fim da empresa; (b) na contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102, de 20.06.1983); (c) na contratação de serviços de conservação e limpeza; e (d) na contratação de serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador. Se o Parlamento pretendia “positivar” essa proteção, bastaria editar lei que reproduzisse e especificasse esses critérios.

    Em todo caso, ressalvar-se-ia o óbvio: se desde Adam Smith a riqueza se produz com força de trabalho, capital e natureza (matéria-prima), salutar que a empresa, nas suas atividades-fim (isto é, naquilo que perfaz a sua atividade econômica principal e a situa no mercado), mantenha força de trabalho própria, sob sua subordinação e responsabilidade. Para as atividades-fim, deve ter empregados próprios. Do contrário, consagraríamos a mercancia de mão de obra: para produzir bens ou serviços, bastaria “comprar” força de trabalho oferecida por interpostas empresas, sob regime de comércio. Empresas que, ao cabo e ao fim, lucram “emprestando” pessoas.

    Os defensores do projeto dizem que isso calará as Cortes trabalhistas. Falso, pois os litígios apenas migrarão

    Pois é exatamente o que fará o PL nº 4.330-C. Em seu artigo 3º, ele substitui o critério baseado na distinção entre atividades-fim e atividades-meio, por outro, importado da Europa (e sob severas críticas por lá), que se baseia na ideia de “especialização” da atividade. Noutras palavras, o empresário poderá terceirizar qualquer atividade, inclusive aquelas essenciais ao seu objeto social, desde que o faça por meio de uma “empresa especializada, que presta serviços determinados e específicos, relacionados a parcela de qualquer atividade da contratante”.

    Os defensores do projeto dizem que isso calará as Cortes trabalhistas, porque já não haverá a margem de insegurança jurídica ditada pela dicotomia entre atividade-fim e atividade-meio. Falso, pois o litígio apenas migrará. As cortes trabalhistas não discutirão mais se a atividade terceirizada é, para a empresa tomadora de serviços, finalística ou acessória. Discutirão se de fato ela é fornecida por uma empresa “especializada”, que detenha “know-how” diferenciado para aquela atividade, ou se é apenas um simulacro de empresa, sem qualquer especialização técnica, que existe basicamente para fornecer mão de obra comum à(s) tomadora(s). Assim, p. ex., a varrição de dependências configuraria um “serviço técnico especializado”? E o atendimento de balcão? Tudo isto, ademais, com uma agravante: sobre esse novo “paradigma”, o Brasil não tem qualquer jurisprudência acumulada. Tudo poderá vir. A insegurança jurídica triplicará.

    Dizem também que haverá avanços na proteção aos trabalhadores. Ledo engano. Esse modelo de terceirização ampla e irrestrita, em qualquer modalidade de atividade, fere de morte garantias constitucionais como a isonomia, porque admite que, em uma mesma linha de produção, haja trabalhadores desempenhando idênticas funções, mas recebendo diferentes salários. Permite burlar a garantia constitucional da irredutibilidade de salários, na medida em que um trabalhador possa ser demitido da empresa tomadora e recontratado, para as mesmas funções, por intermédio da prestadora, mas com salário menor.

    E, não bastasse, representa violação direta ou oblíqua a diversas convenções internacionais das quais o Brasil é parte, como a Convenção 111, que repudia o tratamento discriminatório entre trabalhadores, e as Convenções 98 e 151 da OIT, que tratam da proteção contra atos antissindicais e da sindicalização no serviço público. A contratação de empregados e funcionários terceirizados enfraquece os sindicatos, ao retirar dos trabalhadores a sua unidade e capacidade de mobilização, além de sua própria consciência de classe. Afinal, trabalhadores nas metalúrgicas já não serão metalúrgicos, assim como trabalhadores em bancos já não serão bancários; tornar-se-ão, paulatinamente, trabalhadores em empresas de locação de mão de obra…

    Por fim, caro leitor, se não se sente pessoalmente atingido por nada do que foi dito aqui, poderia até me indagar: o que me interessa nesta discussão? Sacrificar-se-ão os direitos alheios, não os seus.

    Você também estará enganado. A vingar o PL nº 4.330, daqui alguns anos, ao necessitar de serviços de um hospital, você já não saberá se o médico que o atende ou opera foi selecionado e contratado pela instituição nosocomial de sua escolha, ou se é um terceirizado, admitido porque, na terceirização, o “preço” dos serviços cai surpreendentemente. Ao adentrar em um avião, já não terá qualquer garantia de que o piloto ou copiloto foi selecionado, contratado e treinado pela companhia aérea da sua preferência, ou se é alguém fornecido, a baixo custo, por uma empresa prestadora de “serviços técnicos especializados” de pilotagem de aeronaves. Que tal?

    Pense-se com espírito de solidariedade, pense-se com o próprio umbigo, o modelo proposto pelo PL nº 4.330 é desastroso. Ponto final.

    Guilherme Guimarães Feliciano é juiz titular da 1ª Vara do Trabalho de Taubaté/SP, diretor de prerrogativas e assuntos jurídicos da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho

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    1. óbvio que o interlocutor está assumindo uma postura condizente com seu cargo; o que não pode continuar é o custo elevado para quem contrata

      a situação é no mínimo nefasta: o empregado ganha pouco e o patrão paga muito, porque o governo tem um apetite voraz por impostos…

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  14. COMENTÁRIO: OPÇÃO POR IPO DA CAIXA SEGURADORA FOI PARA REFORÇAR CUMPRIMENTO DA META FISCAL

    Brasília, 08/04/2015 – O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciou nesta quarta-feira que a Caixa Econômica Federal vai abrir o capital da área de seguros do banco estatal. O Broadcast antecipou a informação no dia 6 de fevereiro deste ano.

    O ministro quis acelerar a abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) da área de seguros porque uma oferta pública da instituição financeira de forma unificada, embora mais atraente, só ficará para o ano que vem.

    A opção por “fatiar” foi a forma como o governo conseguiu para reforçar as contas neste momento em que a equipe econômica enfrenta uma dificuldade ainda maior para cumprir a meta de superávit primário fixada em R$ 66,3 bilhões para 2015.

    O Tesouro Nacional tem 100% do capital do banco. Depois desse início de ano difícil por conta do impacto da operação Lava Jato que investiga corrupção na Petrobras, a avaliação é de que o cenário vai desanuviar a partir do segundo semestre com os primeiros resultados do trabalho de ajuste e busca de confiança que está sendo feito pelo ministro Levy.

    Miriam afirmou que o modelo desse IPO vai ser o mesmo da abertura de capital da BB Seguridade. Feito em 29 de abril de 2013, a oferta inicial de ações da BB Seguridade arrecadou R$ 11,5 bilhões, o maior valor atingido por uma empresa brasileira desde 2009. A ideia seria repetir esse mesmo sucesso com a Caixa Seguradora, união entre a Caixa e a francesa CNP Assurances.

    Os sócios franceses eram contrários à abertura de capital da Caixa Seguradora. “Não se faz um IPO porque se precisa de dinheiro”, afirmou o presidente Thierry Claudon,, quando questionado se o governo não poderia acelerar a operação para fazer caixa e cumprir a meta de superávit primário, economia para o pagamento dos juros da dívida. “Pode se ganhar muito mais dinheiro com os novos negócios, como com essa empresa que vamos lançar”, afirmou.

    O ministro Levy minimizou a resistência da estatal francesa CNP. “Se o negócio expandir, só vejo que será bom para os franceses”, disse. A parceria entre Caixa e CNP Assurances foi firmada em 2001. Até 2021, a francesa tem a exclusividade de vender os produtos nas agências e com os correspondentes da Caixa.

    Thierry lembra que quando adquiriu 51% das ações da Caixa Seguradora, em 2001, por meio de uma licitação – o controle majoritário era da Funcef, fundo de pensão dos funcionários do banco – a CNP pagou US$ 538 milhões pelo negócio firmado entre os dois país, uma vez que a empresa francesa é uma estatal. O montante chegou a impactar o resultado da balança comercial brasileira.

    Hoje, a operação brasileira é a segunda mais importante da CNP no mundo, atrás apenas da unidade francesa. A Caixa Seguradora é a terceira do setor, mas afirma ser a mais rentável e enxuta empresa do segmento.

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  15. ENTREVISTA: PARA DAVID KUPFER, AJUSTE DO GOVERNO NÃO PODE SE ESTENDER POR MAIS DE UM ANO E MEIO

    Rio, 02/04/2015 – A indústria brasileira chega ao contexto de mudança de rumo na economia “bastante mal posicionada” e “sem fôlego”, por isso, o período de ajustes não pode se estender mais do que um ano ou um ano e meio. O problema, na visão do economista David Kupfer, professor da UFRJ e um dos principais estudiosos da indústria no meio acadêmico, é que falta sinalização dos caminhos após o ajuste. Ele avaliou que, sem esse sinal, o risco é o investimento industrial seguir retraído e, quando a economia se recuperar, a volta da demanda ser atendida com capacidade produtiva antiga, improdutiva e de alto custo.

    O resultado, assim é inflação pressionada e o tradicional comportamento “pare e siga” (“stop and go”) do crescimento econômico, sempre dependente da atividade global. “Ficaremos dependentes do dinamismo da economia mundial. Como isso não é esperado, o nosso ‘stop and go’ vai ser mais ‘stop’ do que ‘go'”, diz Kupfer. Após três anos e meio como assessor da Presidência do BNDES, Kupfer está de volta ao Grupo de Indústria e Competitividade (GIC) da UFRJ, para se dedicar à pesquisa acadêmica.

    Veja, a seguir, os principais pontos da entrevista:

    Agência Estado: Como a indústria enfrentará a crise atual?
    David Kupfer: Há um compromisso com um ajuste, eminentemente fiscal, que tem como elementos a retomada de um superávit primário, a manutenção da taxa de juros elevada por um período de tempo em torno de dois anos e a transição para uma taxa de câmbio mais desvalorizada. É uma mudança importante no mix macroeconômico, particularmente a taxa de câmbio desvalorizada. Tudo está um pouco apoiado em como esse momento vai ser digerido pelo sistema econômico. Se a economia conseguir fazer essa transição em tempo não tão longo (o que asfixiaria ou provocaria uma eliminação muito pesada de capacidade produtiva) e se rearrumar em torno desse novo mix, então vamos ter um quadro que vai trazer alguma mudança nos setores (industriais) que vão estar em expansão, realizando investimentos mais intensivos em modernização, ou mesmo em substituição de equipamentos.

    Agência Estado: O ajuste e o novo mix são positivos para a indústria?
    Kupfer: Ainda estamos numa fase em que o ajuste está sendo colocado como um fim em si mesmo. A percepção é de um ajuste como uma etapa necessária para alguma coisa que não sabemos o que é. Não há uma visão de política econômica mais longa que permita extrair implicações para a atividade produtiva em geral. Há uma necessidade de completar uma transição em direção de uma taxa de câmbio mais desvalorizada, que traz implicações relativamente profundas sobre a organização do tecido industrial, porque ela é muito diferente do padrão que vinha prevalecendo no período recente.

    Agência Estado: A indústria passou muito tempo com câmbio apreciado?
    Kupfer: A indústria está há muito tempo trabalhando com câmbio apreciado, o que significa que está há muito tempo trabalhando com uma baixa competitividade de exportação, trabalhando com uma rentabilidade nas operações internas comprimida pelo preço de importação, particularmente em manufaturados, que tem levado, na medida do possível, àquele processo de substituição de insumos locais por insumos importados, numa tentativa de reduzir os custos de produção. Com a mudança do dólar, essa estratégia, que é de flexibilidade de “sourcing” (fornecedores), entra em xeque. As empresas que têm realmente flexibilidade de “sourcing” vão ser as que vão reagir primeiro, porque vão conseguir trocar importação por produção local e, a um dólar bem mais valorizado, isso vai trazer competitividade.

    Agência Estado: O ajuste vai demorar?
    Kupfer: Como a gente está num quadro político muito efervescente, muito volátil, muito confuso e de muito conflito, certamente esse processo tende a ser mais lento e menos efetivo do que poderia ser. A gente vai passar uma parte de 2015, em vez de avançando nessa agenda do ajuste, discutindo a agenda do ajuste. É uma situação indesejada, porque talvez a gente acabe tendo todos os custos econômicos (do ajuste) sem ter os benefícios.

    Agência Estado: Como a indústria está posicionada perante o ajuste?
    Kupfer: A indústria chega bastante mal posicionada porque ela já vem sem gordura para poder acomodar esse período de retração. A indústria já vem sem fôlego e isso sugere que o período de ajustamento não pode se estender demais, porque se isso não se resolver num tempo satisfatório, essas empresas já sem fôlego talvez enfrentem dificuldades maiores.

    Agência Estado: O que seria um tempo satisfatório?
    Kupfer: É um ano, um ano e pouco, daqui para 2016, para meados de 2016. A gente não pode, e isso é parte de uma agenda de política econômica, deixar o sistema industrial hibernando, esperando a bonança, para voltar a se colocar em movimento. De algum modo, há que se criar as condições para que, rapidamente, o investimento retome, para que, quando a economia melhorar e voltar a crescer, você já esteja construindo capacidade nova. A gente não pode repetir o ciclo em que o processo de expansão da economia é atendido por utilização de capital (maquinário e capacidade de produção) existente, particularmente por colocação em funcionamento de estoque de capital antigo.

    Agência Estado: O que pode ocorrer se a indústria ficar hibernando?
    Kupfer: Suponha que tudo funcione macroeconomicamente, daqui a um ano e meio a economia começa a crescer, e a gente não vai ter capacidade de atender esse crescimento e vai atender com a capacidade prévia existente, com um estoque de capital de relativamente baixa produtividade, defasado tecnologicamente. Aí, a oferta vai encontrar uma demanda mais animada, mas ela vai fazer isso com custos crescentes e vamos ter pressões inflacionárias. Vai parecer que há uma inflação de demanda, mas não pode existir inflação de demanda se a gente está num processo de estagnação há quatro anos. Só parece que é uma inflação de demanda. Essa é um pouco a tese da rigidez estrutural. A rigidez estrutural provoca um quadro que parece uma inflação de demanda porque a demanda anima e a oferta responde com preços crescentes como se estivesse no seu limite, mas, na verdade, não é uma inflação de demanda, é uma baixa eficiência, um hiato tecnológico do equipamento de produção.

    Agência Estado: O que ocorre se esse quadro se repetir com o câmbio elevado?
    Kupfer: Vai acontecer o que é o padrão histórico recente, dos últimos 30 anos, que é o “stop and go”. A economia começa a crescer, rapidamente encontra restrições, a inflação começa a reagir e a aumentar, a política (monetária) é obrigada a atuar, para fazer a economia caber na capacidade de produção. No “stop and go”, a gente vai saber claramente que a economia brasileira só poderá ter um surto de crescimento se as condições externas forem muito favoráveis, se a gente tiver uma melhora enorme dos termos de troca, se a gente tiver algo semelhante com as condições externas do período de 2004 a 2008, parte delas motivadas por uma mudança estrutural na economia mundial, que foi o efeito China, outra parte motivada por uma bolha. Ficaremos dependentes do dinamismo da economia mundial. Como isso não é esperado, o nosso “stop and go” vai ser mais “stop” do que “go”.

    Agência Estado: Como poderia dar certo o ajuste?
    Kupfer: Estamos completamente dependentes do processo macroeconômico. Tudo o mais está condicionado pela natureza do ajustamento. Para conseguir escapar da armadilha da rigidez estrutural seria preciso, em primeiro lugar, uma sinalização muito clara do que será a economia após a arrumação das contas públicas, que aparentemente vai dominar o cenário econômico neste ano de 2015 e em 2016. Eu posso montar um cenário e falar: vamos chegar a uma taxa de câmbio da ordem de R$ 4,00 por dólar, em 2016 ou 2017, que seria um câmbio competitivo; não é um câmbio valorizado nem um câmbio desvalorizado. Os R$ 3,20 de hoje ainda não são um câmbio competitivo.

    Agência Estado: Dá para fazer essa sinalização sem mudar o câmbio flutuante?
    Kupfer: O câmbio tem que ser, de fato, o que ele é: um câmbio com uma flutuação administrada. A questão é saber se há meios de garantir essa administração.

    Agência Estado: Basta o câmbio?
    Kupfer: A segunda perna seria construir uma visão também crível de uma taxa de juros decrescente num prazo mais longo. Tenho ouvido previsão de taxa de juros a 14,0%. Não temos tanta pressa em relação à taxa de juros, por uma série de razões. A principal delas é que as nossas empresas sabem conviver, aprenderam a conviver ou se acostumaram a conviver com taxas de juros muito elevadas, parte porque elas têm flexibilidade financeira. Seria, do ponto de vista desse mix macroeconômico, fazer uma administração da taxa de juros mais gradual, caindo 1 ponto porcentual real ao ano, de forma que, saindo de 14,0%, em 2016, a gente teria uma taxa de juros civilizada em três ou quatro anos. Não é um horizonte excessivo.

    Agência Estado: Sinalizar nos juros e no câmbio é uma questão de comunicação?
    Kupfer: Isso não é só sinalização e credibilidade de governo, não é só uma questão psicológica. A economia depende de variáveis psicológicas, mas não depende exclusivamente disso, então, tem que ter um monte de outras ações e uma política industrial que prepare o terreno para essa fase adiante. Não dá para ter apenas macroeconomia. Não creio que seja um problema de comunicação, é uma questão de projetos. Apoiar determinados projetos, concretizar determinados investimentos, mudar determinados marcos legais e características até da própria administração. São ações de fato.

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    1. Só falou besteira esse economista. Acadêmico que nunca pisou dentro de uma industria. Ou se pisou, foi para quando muito, pisar em um auditório e ver uns power point exposto pelo Presidente ou Diretor Industrial. Escrevam o que eu venho repetindo por diversas vezes: A indústria em época de bonança acumula vícios grandes de improdutividade e estes são varridos para debaixo do tapete porque os número são róseos. Quando vem quaisquer períodos de incerteza é onde a Industria em geral “levanta o tapete” e faz a sua lição de casa. A produtividade aumenta enormemente e não cai, como diz esse economista de auditório. Ainda bem que EU SEI disso e fico tranquilo. Histórico? Mais de 6 dúzia de vezes gerindo crises – na realidade, oportunidades. 🙂

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